Vai dar certo

Um em cada dois pacientes internados com Covid tem complicações, mostra estudo

Por Mais Ceará em 15/07/2021 às 21:27:40

Metade dos pacientes que sĆ£o internados com Covid-19 desenvolve uma ou mais complicaƧƵes, segundo o maior estudo do tipo, publicado nesta quinta-feira (15) na revista médica inglesa The Lancet.

A pesquisa analisou dados de 73.197 pacientes com 19 anos ou mais que receberam atendimento médico, entre janeiro e agosto de 2020, em 302 hospitais no Reino Unido.

Desse total, 36.367 (49,7%) tiveram pelo menos uma complicaĆ§Ć£o de saúde –cardiovascular, respiratória, neurológica, renal, hepĆ”tica, gastrointestinal e/ou sistêmicas– no período em que estavam no hospital, seja na ala de enfermaria ou em alas de cuidados intensivos.

E passaram a ter mais dificuldade para cuidar de si mesmos após as complicaƧƵes –algo mais proeminente em pacientes com menos de 50 anos.

Foto: ReproduĆ§Ć£o/Twitter

Isso mostra um impacto na qualidade de vida, diz Gustavo Prado, pneumologista do Hospital AlemĆ£o Oswaldo Cruz, que nĆ£o participou do estudo. “É mais do que experimentar uma complicaĆ§Ć£o, é ter, por essas complicaƧƵes, um impacto sobre a sua condiĆ§Ć£o geral, que diminui a sua independência”, afirma o médico, citando possíveis dificuldades em momentos teoricamente bĆ”sicos do dia a dia, como tomar banho, trocar de roupa e se alimentar.

NĆ£o hĆ” dados na pesquisa, porém, sobre a condiĆ§Ć£o dos pacientes após a alta, portanto, nĆ£o hĆ” como saber o desenrolar da situaĆ§Ć£o dessas limitaƧƵes.

“Vimos que, mesmo em pessoas previamente saudĆ”veis, sem comorbidades registradas, complicaƧƵes foram observadas em quatro em cada dez pacientes hospitalizados”, dizem, no estudo, pesquisadores de instituiƧƵes britĆ¢nicas como o Imperial College, a Universidade de Edinburgh e a Universidade de Nottingham, entre outras.

A pesquisa também mostrou que as complicaƧƵes da Covid ocorreram em pacientes de todos os grupos etĆ”rios, nĆ£o só nos mais velhos.

“NĆ£o podemos presumir que, apenas por ser jovem e nĆ£o ter doenƧa anterior, o paciente internado por Covid, nĆ£o vai ter nenhuma complicaĆ§Ć£o. Ele jĆ” teve uma gravidade de doenƧa suficiente para ser internado”, afirma Prado. “Essa informaĆ§Ć£o muito propagada, principalmente no início da pandemia, que só matava idosos nĆ£o é verdade.”

De acordo com os autores da pesquisa, que continuam coletando dados prospectivamente, o desenho das políticas públicas têm que levar em conta nĆ£o apenas a mortalidade ao decidir sobre medidas para evitar propagaĆ§Ć£o da doenƧa mas também considerar o “risco de complicaƧƵes de curto e longo prazo para aqueles que sobrevivem à Covid-19”.

“Os formuladores de políticas públicas devem esperar que grandes quantias de recursos de cuidados sociais e de saúde serĆ£o necessĆ”rios para auxiliar os sobreviventes da Covid”, afirmam os autores da pesquisa.

As maiores taxas de complicaƧƵes foram observadas em pacientes que necessitaram de UTI, algo esperado considerando outros estudos e observaƧƵes ao longo da pandemia. Cerca de 82% das pessoas que precisaram de atendimento intensivo tiveram complicaƧƵes.

As mais comumente observadas foram lesĆ£o renal aguda e distúrbios respiratórios e sistêmicos –problemas associados a uma maior risco de morte. Outras complicaƧƵes frequentemente encontradas foram lesĆ£o hepĆ”tica, anemia e arritmia cardíaca.

Os menos comuns foram os distúrbios neurológicos, mas, ao mesmo tempo, foram os mais associados à reduĆ§Ć£o de capacidade de autocuidado.

Os dados obtidos pelos pesquisadores mostram ainda o aumento da incidência de complicaƧƵes conforme avanƧam as faixas etĆ”rias. Nas pessoas sem comorbidades de 19 a 29 anos, cerca de 21% (178 em um grupo de 839) apresentaram complicaƧƵes após a Covid.

Considerando o grupo etƔrio de 19 a 49 anos, quase 39% das pessoas (3.596 de 9.249) tiveram complicaƧƵes. Por fim, essa taxa sobe para 51% nas pessoas com 50 anos ou mais.

Os autores apontam também que foi observada uma elevada mortalidade na pesquisa, com mais de 23 mil óbitos, ou pouco mais de 31% dos pacientes.

A maior parte das pessoas observadas no estudo era do sexo masculino e branca, a média de idade era de 71 anos e cerca de 81% dos pacientes tinham ao menos uma comorbidade.

Segundo Prado, pneumologista do Hospital AlemĆ£o Oswaldo Cruz, é importante cuidado para nĆ£o extrapolar os dados obtidos para qualquer caso de Covid. Isso porque a pesquisa foi desenvolvida com pacientes internados, o que pressupƵe casos de Covid moderada ou grave.

“NĆ£o representa o comportamento médio do paciente daquela idade. Represente o pior subgrupo”, diz Prado. “Os pacientes que internam por Covid têm incidencia alta de complicaƧƵes em todas as idades.”

Também vale destacar que a maioria (quase 86%) dos pacientes analisados tinha diagnóstico de Covid confirmado por exame PCR. O restante, considerados casos altamente suspeitos, também foram incluídos na anĆ”lise porque os testes PCR nĆ£o estavam amplamente disponíveis em todas as localidades no período de tempo abordado no estudo.

De toda forma, esses pacientes sem resultado positivo por PCR tiveram resultados de complicaƧƵes semelhantes aos observados no resto das pessoas com Covid confirmada.

Como todo estudo, esse também tem limitaƧƵes. Uma delas foi a grande pressĆ£o sobre o sistema de saúde do Reino Unido. Segundo os autores, isso poderia levar a uma seleĆ§Ć£o preferencial de pacientes em estados ainda mais graves e, consequentemente, a uma taxa maior de complicaƧƵes. No entanto, “o risco disso é reduzido pelo desenho multicêntrico do estudo, considerando que os picos nas internaƧƵes hospitalares variaram no Reino Unido ao longo do tempo”.

Segundo Prado, mesmo com a evoluĆ§Ć£o do conhecimento sobre a Covid e, consequentemente do manejo de pacientes desde o primeiro semestre do ano passado –período em que foram colhidos os dados da pesquisa–, sistemas de saúde sobrecarregados resultam em aumento de mortalidade e piores desfechos nos pacientes.

No Brasil, as UTIs para Covid se encontravam com níveis elevados de ocupaĆ§Ć£o, o que mudou recentemente, chegando aos menores níveis do ano. Levantamento do jornal Folha de S.Paulo apontou que as capitais do país com maiores taxas de ocupaĆ§Ć£o eram SĆ£o Luís, no MaranhĆ£o, com ocupaĆ§Ć£o de 90%, e Rio de Janeiro, com 86%.

Considerando as redes estaduais, porém, as maiores ocupaƧƵes de UTI foram encontradas em GoiĆ”s, ParanĆ” e Santa Catarina, todos com 81%.

Apesar da melhora recente nos dados e da maioria dos brasileiros achar que a pandemia de Covid estĆ” controlada no país, os níveis de infecĆ§Ć£o e mortes permanecem em níveis elevados. Atualmente, sĆ£o registrados mais de 40 mil casos de Covid por dia no Brasil.

Fonte: Banda B

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