Pintando o SeteAzul

Receio de retomar a vida ap√≥s a flexibiliza√ß√£o pode estar associado à s√≠ndrome da cabana

Por Mais Ceará em 22/11/2020 às 17:17:27

A escrevente diz que j√° chegou a escutar da própria família que est√° se excedendo nos cuidados para n√£o se infectar com a Covid-19. Tanto que as próprias irm√£s passaram a esconder dela quando v√£o se encontrar. "Fa√ßo um discurso a cada saída que elas fazem", explica. "Mas esse exagero que eu tenho no cuidado n√£o é irreal, nessa de flexibilizar as pessoas est√£o se infectando mais. Estou preparada para ficar mais 8 a 12 meses em casa."

E, mesmo que uma vacina fosse aprovada, ela diz que ainda n√£o conseguiria sair tranquilamente na rua. "Eu continuaria tomando as mesmas cautelas", afirma. "Até ter certeza de que o perigo j√° passou mesmo. Mas sou pessimista, acredito que mais vírus vir√£o."

Esse receio de retomar a vida "l√° fora" pode estar associado a algo que os especialistas conhecem como síndrome da cabana. A psicoterapeuta Sabrina Amaral, 42, diz que o principal sintoma é a angústia e o medo acima do normal de sair de casa, que se manifesta em sinais como taquicardia, sudorese e frio na barriga. "Para essas pessoas, sair de casa seria como se estivessem colocando a m√£o na boca de um jacaré", compara.

Ela explica que essa condi√ß√£o come√ßou a ser estudada no ano de 1900 e foi observada inicialmente nas regi√Ķes de inverno mais severo nos Estados Unidos, em que as pessoas tinham que passar longos períodos isolados em suas cabanas. Quando o frio passava e a neve derretia, algumas pessoas apresentavam esses sintomas, como se houvesse uma amea√ßa iminente de perigo.

Como a quarentena obrigou a maioria das pessoas a passarem meses trancados dentro de casa, o termo passou a estar em voga depois que a flexibiliza√ß√£o possibilitou saídas mais frequentes, desde que tomados os devidos cuidados. Mas Amaral tranquiliza: "A despeito de ter esse nome que assusta um pouco, ela n√£o é uma doen√ßa mental severa e nem mesmo est√° no cat√°logo de doen√ßas mentais".

Amaral explica: "O nosso cérebro fica condicionado, ele associa que estar em seguran√ßa é estar dentro de casa". "Quando você precisa retomar as saídas, aparecem os sinais", diz. Também podem estar associados à síndrome da cabana sintomas como letargia, falta de motiva√ß√£o, sono excessivo e alguns comportamentos aditivos, como comer ou beber demais.

O principal problema, no entanto, é que ela pode ser a porta de entrada para outros problemas mais graves, como agorafobia (fobia de espa√ßos abertos ou públicos), síndrome do p√Ęnico ou transtorno de ansiedade generalizada (TAG).

A psicoterapeuta diz ser possível treinar o cérebro para reverter esse quadro com uma técnica da terapia cognitivo-comportamental chamada de dessensibiliza√ß√£o sistem√°tica, que nada mais é que se aproximar gradualmente daquilo que provoca o medo.

Ela reitera que n√£o é da noite para o dia que todos os problemas da pessoa ir√£o se resolver. "É similar a quando você quebra uma perna e tem que fazer fisioterapia para voltar a ter os movimentos", equipara. "Tem que fazer uma espécie de fisioterapia emocional para ganhar flexibilidade de novo nas emo√ß√Ķes."

Amaral também diz que, apesar de algumas pessoas pensarem que n√£o est√£o com o problema, vale consultar um profissional se você escuta a todo momento dos outros que seu medo é exagerado. "É como a pessoa que trabalha numa f√°brica onde faz muito barulho, pensa que escuta normal e só percebe que n√£o é bem assim quando reclamam que est√° com o volume da TV nas alturas", brinca.

"Muitas pessoas, especialmente em aspectos emocionais, entram em nega√ß√£o", lembra. "Mas se os familiares est√£o preocupados, se existem comportamentos recorrentes e observ√°veis, vale à pena procurar um especialista. O m√°ximo que vai acontecer é você ter um olhar neutro sobre o que você est√° sentindo."

V√°lvula de escape

Para Kedma, citada no come√ßo do texto, uma coisa que tem contribuído é a companhia da cadelinha Canjica. "Adotei ela em julho e tem me ajudado bastante", admite. Por causa dela, a escrevente tem feito pequenas saídas di√°rias para passear com o animalzinho na rua (sempre escolhendo hor√°rios em que vai ter pouco ou nenhum contato com outras pessoas).

J√° para a analista de recursos humanos Daniela Domenici Ferreira, 36, as filhas, Maria Fernanda, de 1 ano e 11 meses, e Ana Carolina, de 7 meses, têm funcionado como essa v√°lvula de escape. A moradora do Jardim Pedreira (zona sul de S√£o Paulo) só abre exce√ß√£o para sair de casa quando tem que lev√°-las para as consultas com o pediatra.

"Inclusive mudei para um pediatra que é um senhor de idade e est√° tomando todas as medidas cabíveis para se proteger", conta. "Ele atende menos pessoas e faz intervalos maiores entre os pacientes para n√£o encontrarmos com mais ninguém no consultório."

Desde que o início da pandemia, Ferreira conta que as saídas de casa foram todas relacionadas a saúde. Ela teve de ser internada em mar√ßo, com 37 semanas de gesta√ß√£o, por suspeita de ter contraído o coronavírus. Depois que voltou para casa, só saiu para ter a segunda filha.

De uma família de descendentes de italianos, ela diz que sente falta dos almo√ßos de s√°bado com todos reunidos na casa da avó, de 83 anos. "Tem gente da minha família que nunca viu a minha filha mais nova", lamenta. "Fiz uma conta no Instagram para eles poderem acompanhar o crescimento dela. É triste."

Ela também n√£o sai de casa para fazer as compras. "Se n√£o fosse o meu marido, eu ia passar fome", brinca. "Eu ensinei ele a escolher as frutas. Quando ficava na dúvida, ele fazia chamada de vídeo do mercado." E quando chega em casa, ela higieniza tudo e manda ele ir direto tomar banho.

Mesmo com todos os cuidados, ela, o marido e as duas filhas contraíram o vírus depois do nascimento da bebê, depois que o marido teve contato com familiares que participaram de um encontro. "Até hoje, n√£o sinto gosto e cheiro direito", reclama. Além disso, o sogro faleceu por complica√ß√Ķes com a Covid-19.

"Tenho receio de pegar algo, passar para quem eu amo e essa pessoa morrer", compartilha. "Eu notei que a minha ansiedade est√° muito grande, porque voltei a roer as unhas. Eu tinha parado havia 15 anos, e agora voltei."

Desempregada, ela diz que n√£o aceitaria no momento nenhum emprego que fosse presencial. "Antes de uma vacina, eu n√£o vou", afirma. "Ficaria muito mais tranquila se houvesse."

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Fonte: Banda B

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