Nenhum outro povo cuida dos amigos tão bem como a gente, principalmente os camaradas e companheiros de ideologia.
É a amizade que faz de nós o povo em que impera o "aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei". Essa antiga frase reflete muito bem quem somos nós, os brasileiros.
Em um jogo de narrativas, defendemos e atacamos de acordo com a conveniência do momento ( Em 13 e 17 era luta pela democracia, mas em 23 os mesmos atos são chamados de terrorismo).
Não faltou quem tenha tentado nos interpretar, de Gilberto Freyre a Caetano Veloso, passando pelo macumaimico Mário de Andrade e até mesmo aos ídolos da lacração Anita e Pablo Vitar.
E o que dizer da nossa famosa ginga, ora mãe orgulhosa de certo jogo de cintura, ora madrasta envergonhada do jeitinho brasileiro.
Oscilando bipolarmente entre o orgulho e o preconceito de sermos nós mesmos, seguimos sem saber quem somos.
Mas algumas coisas sabemos. Sabemos, por exemplo, que não gostamos de regras e leis.
Há alguns anos, Roberto DaMatta no seu famoso livro, "Carnavais, malandros e heróis", explicou que somos uma sociedade contextual, ao contrário das anglo-saxônicas, que seriam contratuais. Ou seja, diante de um semáforo vermelho o inglês não pensa, apenas para; já o brasileiro, numa fração de segundo, olha para um lado, para o outro, vê se vem carro, se tem guarda, se tem gente, e decide se para ou passa.
Obedecer ou não é simples cálculo de custo-benefício.
Imaginar-se acima das regras fez de nós uma nação de corruptos e hipócritas onde intelectuais de conveniência e idiotas úteis que ao defenderem seus políticos-bandidos de estimação criam uma aura de engajamento para se manterem bem com a patota influencer, serem aceitos nas rodas de " inteligentes " e consideradas pessoas de bem.
"Aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei" é frase tão repetida porque reflete direitinho quem somos e como nos organizamos enquanto nação.
Diz que democracia, entre nós, não é entendida como o poder exercido pelo povo, mas como a possibilidade de usar o povo para conquistar, exercer e se beneficiar do poder.
E diz ainda que os políticos estão sempre dispostos a fazer novos amigos, inclusive entre os inimigos de ontem.
Podemos confirmar tal fato Parafraseando um dos bordões do mestre do Humor, Chico Anisio no personagem Pantaleao; É mentira Alckmim?
Não sei se a nossa civilização tropical deve ser tomada como modelo pelo resto do mundo, mas pelo menos num aspecto nós somos os mestres supremos: nenhum outro povo cuida dos amigos tão bem quanto nós.
Fonte: Rafael Rocha