Pintando o SeteAzul

Pandemia e o Distanciamento do Laissez-Faire

Por Dr Paulo Quezado

Por Mais Ceará em 14/04/2021 às 18:59:20

O termo que mais nos acerca hoje por tudo que ouvimos, vemos e vivemos é a pandemia, denominação utilizada para se referir a uma doença contagiosa, transmitida entre indivíduos para diferentes regiões geográficas em diversas partes do mundo, de forma sustentada e simultânea.

O mundo já experimentou e enfrentou diversas pandemias, em períodos distintos da história, umas mais letais que outras, mas certamente, todas elas deixaram suas marcas de tensão social, mudança de comportamento e crise econômica severa.

Nos últimos 30 anos tem crescido a incidência de surtos por vírus, proliferando doenças que assolam todo o mundo, todavia, relatos históricos de pandemias vão além dos séculos XX e XXI e já preocupam a humanidade há pelo menos dois mil anos, inclusive através de doenças causadas por outros agentes patogênicos além dos vírus.

Inicialmente chamada de 2019-n-CoV, a infecção provocada pelo novo coronavírus, atualmente denominado Sars-Cov-2, recebeu em 11/02/2020 o nome oficial deCOVID-19 e significa "doença por coronavírus" em inglês.Um mês depois, aOrganização Mundial da Saúde - OMS, após contabilizar mais de 118 mil infecções em 114 nações, com 4.291 óbitos, declarou a Covid-19, causada pelo novo coronavírus como uma pandemia, disseminação mundial de uma nova doença.

Já no século XXI, antes mesmo da Covid-19, uma recente pandemia se instalou em 2009, provocada pelo vírus H1N1, chamada de gripe suína, pois segundo acreditam os cientistas o vírus vinha do porco e de aves, com o primeiro caso registrado no México, sendo elevada ao status de pandemia pela Organização Mundial de Saúde em junho daquele ano, após registro de 36 mil casos da doença em 75 países. O final dessa pandemia foi decretado pela OMS em agosto de 2010, contabilizando casos registrados em 187 países e cerca de 300 mil vidas perdidas.

A Covid -19 vem se somar a uma lista extensa de pandemias que percorre um período vasto da história, podendo listar as seguintes:

Peste do Egito (430 a.C.) - a febre tifoide matou um quarto das tropas atenienses e um quarto da população da cidade durante a Guerra do Peloponeso. Esta doença fatal debilitou o domínio de Atenas, mas a virulência completa da doença preveniu sua expansão para outras regiões, a doença exterminou seus hospedeiros a uma taxa mais rápida que a velocidade de transmissão. A causa exata da peste era por muitos anos desconhecida; em janeiro de 2006, investigadores da Universidade de Atenas analisaram dentes recuperados de uma sepultura coletiva debaixo da cidade e confirmaram a presença de bactérias responsáveis pela febre tifoide.

Peste Antonina (165–180) - possivelmente causada pela varíola trazida próximo ao Leste; matou um quarto dos infectados. Cinco milhões no total.

Peste de Cipriano (250–271) - possivelmente causada por varíola ou sarampo, iniciou-se nas províncias orientais e espalhou-se pelo Império Romano inteiro. Segundo relatado, em seu auge chegou a matar 5.000 pessoas por dia em Roma.

Peste de Justiniano (541 - x). A primeira contaminação registrada de peste bubônica. Começou no Egito e chegou à Constantinopla na primavera seguinte, enquanto matava (de acordo com o cronista bizantino Procópio de Cesareia) 10.000 pessoas por dia, atingindo 40% dos habitantes da cidade. Foi eliminada até um quarto da população do oriente médio.

Peste Negra (1300 - x) - oitocentos anos depois do último aparecimento, a peste bubônica tinha voltado à Europa. Começando a contaminação na Ásia, a doença chegou à Europa mediterrânea e ocidental em 1348 (possivelmente de comerciantes fugindo de italianos lutando na Crimeia), e matou vinte milhões de europeus em seis anos, um quarto da população total e até metade nas áreas urbanas mais afetadas. A peste designa a doença transmitida para os seres humanos por meio das pulgas de ratos contaminados com uma bactéria. Existem estudos indicando que a peste bubônica possa ter causado a morte de até 50 milhões de pessoas no continente europeu somente no período entre 1347 a 1353. Os relatos indicam que a doença trouxe pânico e fez com que muitos fugissem das grandes cidades como forma de se proteger. Aqueles que tinham dinheiro e propriedades fora das cidades fugiram e se esconderam por lá. Os relatos também falam que a ordem política, em alguns locais, ruiu, porque as autoridades ou haviam morrido pela doença, ou não tinham mais meios de governar. Os médicos da época não tinham ideia do que causava a doença, mas perceberam que o isolamento era uma forma de evitar que a peste se propagasse ainda mais. Assim, pessoas começaram a se isolar em suas casas, e os doentes mantinham contato só com os médicos.

Gripe Espanhola (1918-1920) - A "gripe espanhola" foi uma pandemia do vírus influenza que, entre janeiro de 1918 e dezembro de 1920, infectou 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. Estima-se majoritariamente que o número de mortos esteja entre 17 milhões a 50 milhões, com algumas projeções indicando até 100 milhões. Independente da diferença entre os números, trata-se de uma das epidemias mais mortais da história da humanidade. Aqui no Brasil a gripe espanhola chegou em setembro de 1918, por meio dos passageiros de uma embarcação inglesa que atracou em três cidades: Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Grandes cidades, como São Paulo, sofreram bastante com a doença. Acredita-se que ela tenha contaminado, pelo menos, metade da população paulistana. No Brasil, como em outras partes do mundo, medidas de isolamento foram tomadas com o decreto do fechamento de escolas, repartições públicas e alguns tipos de comércio. Ao todo, 35 mil pessoas morreram de gripe espanhola no Brasil.

Outras doenças igualmente tiveram importantes registros de contaminação também considerados pandêmicos. São bactérias, vírus e microrganismos que ocasionaram milhões de mortes desde os primórdios até a atualidade, a exemplo do HIV, Ebola, Sarampo, Cólera, Tifo e Tuberculose que assolaram populações ao redor do mundo.

Hoje a história se repete. Na atual pandemia da COVID-19, com quase três milhões de mortes em todo o mundo, o foco principal consiste em primeiramente conter a proliferação do contágio adotando principalmente cuidados higiênicos, como lavar as mãos, higienizar superfícies, usar máscaras de proteção na boca e nariz, aliadas às medidas de isolamento social.

Essa última medida tem sido um grande desafio. Conter grande massas populacionais em confinamento domiciliar consiste em decretar medidas duras como o isolamento compulsório, também conhecido como "lockdown", adotando-se práticas como restrição ao funcionamento de estabelecimentos comerciais, interrupção das atividades escolares, fechamento de locais que propiciam aglomeração como cinemas, teatros, estádios e bares, bem como redução da circulação de veículos e o fluxo de transporte público, além do toque de recolher, termo que vem da pratica usada na Europa em períodos de guerra, quando soava uma sirene para que a população deixasse as ruas em alertas de bombardeio.

Apesar dessa mobilização de esforços, entretanto, essas medidas impactam negativamente a economia e igualmente em proporção global. As economias no mundo inteiro já vivenciam uma recessão comparável à Grande Depressão de 1930, ápice do colapso do sistema capitalista.

Os efeitos de hoje são os mesmos já experimentados, queda da produção, aumento de desemprego, retração da atividade econômica, declínio da renda familiar e um número crescente de falências das empresas.

A pandemia parece estar longe do fim. O mundo moderno vai continuar sofrendo com a doença, seja pelo fluxo de infecções em novas ondas, seja pelo colapso nos sistemas de saúde. Resta encontrar meios de equacionar um paradoxo evidente para estabelecer uma dinâmica capaz de recuperar tanto os doentes físicos quanto a economia enferma até o surgimento do imunizante perfeito e do medicamento eficaz à neutralização e cura da doença.

É uma corrida contra o tempo, mas deve prevalecer o bom senso sem perder de vista que somos humanos e apesar de movidos pela razão, a história nos conta que foram os maiores medos, perigos e desafios que motivaram a necessária compreensão do verdadeiro papel dos líderes que estão na linha de frente do enfrentamento à tensão social e da crise econômica.

Essa percepção conduz inexoravelmente à uma revisão do contratualismo social propugnado por John Locke, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau no sentido de elaborar e inserir novos conceitos ao pacto social, levando governantes, legisladores e demais lideranças a uma coalizão para produzir reformas dos atuais modelos social e econômico, sem qualquer polarização de orientação política.

É momento de se unir para reverter os horizontes do passado, do capitalismo clássico e do neoliberalismo, conforme bem observou o editorial de 04/04/2020 do Financial Times ao sugerir um novo Contrato Social que beneficie a todos indistintamente através de reformas radicais e do sacrifício coletivo: "Se há uma fresta de esperança na pandemia de Covid-19, é que ela injetou um sentimento de união em sociedades polarizadas."

Essa frase revela não só a gravidade da situação do atual mundo globalizado e o desafio da sustentabilidade do atual sistema, como ainda sintetiza a situação mundial de polarização, a necessidade de uma união para enfrentarmos um problema comum e o foco na esperança, como interpretou o filósofo Jung Mo Sung.

Que venha, pois, com urgência, a aliança de todas as lideranças do Estado e da Economia no mundo inteiro escrever as novas cláusulas do Contrato Social, organizar e legitimar essa união para superação da crise e pela defesa da vida humana.


Fonte: Paulo Napoleão Gonçalves Quezado

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